A Porta Estreita

maio 23, 2018


Por incrível que pareça, eu não conhecia a Nara Almeida, a jovem influente nas Redes Sociais, que lutava contra o câncer.

Fiquei admirada de nunca ter chegado um post dela a mim, enquanto navegava pela Internet. Só a conheci quando vi muitas postagens suas circulando pela Rede, noticiando o seu falecimento. Ela não resistiu à doença.

Tomada por uma grande inquietação, em saber quem era a Nara, essa jovem que havia marcado a vida de tantas pessoas, acessei a sua página no Instagram.

E então, eu entendi tudo.

Ver um único post em que ela falava sobre o verdadeiro valor das coisas, foi o suficiente para que eu compreendesse o trajeto árduo que ela precisou percorrer para chegar a esse filtro. 
No post, ela mostrava uma comparação de fotos. O primeiro quadrante, ela toda produzida, e no segundo quadrante, ela tomada por tubos de medicação, e com o corpo deformado pelo tratamento da doença. A imagem falava por si só, mas ela fez questão de demonstrar em palavras, que tudo passa, e que dessa vida levamos apenas a nós mesmos, a nossa alma. E o que fica, são os nossos rastros de amor.

Bom, este não é um post para falar da pessoa Nara em si, até porque, como já disse, eu não a conhecia. Este é um post para falar do caminho estreito que ela percorreu e das exigências que uma vida interior nos propõe.



Viver sempre será um mistério, mas ao longo desses anos de mundo, de sociedade, algumas coisas foram sendo desvendadas, descobertas. Há uma tendência minimalista, um apelo a não ter tantas coisas. Ouço notícias de pessoas que largaram seus empregos em grandes metrópoles para viver de forma mais simples no interior. Têm os naturalistas também.

Vejo inúmeros novos comportamentos, conscientização, gratidão, pedidos de mais amor. Há quem clame por paz, descanso, ainda mais agora com tantas pessoas adoecendo por depressão, por ansiedade. Para que viver? Qual o sentido da vida? Pra que tudo isso se vamos morrer? Se de uma hora pra outra tudo pode acabar?

E vamos seguindo tendências de simplicidade, de querer viver com pouca coisa, a fim de suprir a maior sede de nossas almas, a sede de plenitude interior. Como é algo tão complexo, e imensurável, vamos medindo com ações exteriores e de desapegos, a fim de amenizar essa sede. Mas na verdade, a grande obra que precisa ser feita, é no nosso interior, obra esta, que requer coragem, renúncia e disposição.

Posso contar um segredo? Viver é necessário, pois é a Vida que nos leva para a plenitude. Posso contar mais? A Vida é a porta do autoconhecimento, tão necessário para que possamos filtrar, como a Nara fez, o que realmente vale a pena se gastar.

Posso dizer ainda mais um pouco? Essa porta é estreita, só passa por ela, quem for exatamente do tamanho dela. Por isso o autoconhecimento. À medida que eu vou me conhecendo, enxergando as minhas reais necessidades, vou abrindo mão daquilo que não faz parte de mim, e acolhendo quem eu sou, na simplicidade, sem tantas coisas para me justificar.

É importante aqui, lembrar da nossa liberdade. Quando encontramos essa tal porta estreita, podemos fazer a escolha de entrar nela ou não. Trilhar um caminho interior, ou não. Sim, eu disse caminho. Depois da porta, existe um caminho.

Digamos que o caminho é ainda mais estreito que a porta em si, e ele vai se afunilando. Justamente, para nos ajudar nesse filtro de coisas relevantes e irrelevantes que trazemos, voluntária, ou involuntariamente. Alguns enfrentam esse caminho por vontade própria, pois entendem que é um caminho para a felicidade, para a liberdade. Outros passam por esse caminho sem o ter escolhido inicialmente, mas o acolhem. A Nara é um caso assim. Ela não escolheu ter essa doença, e nem percorrer esse caminho tão doloroso, contudo, foi apenas nele, que ela entendeu o verdadeiro valor das coisas. Foi neste trajeto, que ela percebeu que festas, roupas, status, dinheiro passam, que um corpo bonito se acaba. Ela entendeu que ser é mais importante que ter. E infelizmente, ou felizmente, esta grande lição custou a sua vida aqui.

Há quem venha pela dor, há quem venha pelo amor. Mas independente da via, ambas terão amor e dor. A dor leva ao amor. O amor leva à dor da renúncia.

Oportunamente, lembro do trecho de uma canção, fruto de uma passagem Bíblica que gosto muito. “De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, e vir a perder a própria vida? Tudo vai passar.” Mas, aqui, complemento, e não posso deixar de dizer: Deus não passará, o amor não passará, nossa alma eterna não passará. As marcas da Nara não passarão.

O que é eterno e bom, sempre fica. E é por isso que vale mais a pena se perder no eterno, no caminho estreito, ao invés de desperdiçar tempo e vida com caminhos largos, cheios de tantas coisas, que ofuscam o brilho da simplicidade interior.


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Créditos de texto e imagem à Juliana Wulpi, autora deste blog. 

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