Perdoar é Viver

fevereiro 15, 2018

Hoje tive a oportunidade de meditar a parábola do devedor implacável através do método da Lectio Divina. Sempre começo buscando entender o contexto, e ao me situar com o cenário, com os personagens  e com os objetos, me vejo em cena.

Esta passagem, encontrada no Evangelho de São Mateus, Capítulo 18, versículos de 23 a 35, conta a história de um servo que devia ao seu rei uma quantia considerável de ouro.
Sendo este sincero, reconhecendo que não teria como pagar essa dívida, implora por misericórdia ao seu senhor, que comovido por sua sinceridade, perdoa a dívida.

Guarde as palavras sincero e sinceridade, iremos vê-las repetidas vezes ao longo deste texto.

A seguir, este mesmo servo, liberto, "misericordiado", INACREDITAVELMENTE, cobra de um companheiro seu, também servo deste rei, uma quantia medíocre que este o devia.  Sim, ele se esquece da compaixão que o rei havia tido para com ele, e aprisiona aquele que o deve. Veja bem, uma dívida de valor imensamente inferior à dele, foi capaz de fazê-lo aprisionar um servo como ele. Temos então, um serviçal que se coloca como senhor, como rei, uma posição que não lhe pertence.

O rei, ao saber de toda essa situação, e num ato de justiça, lança este servo ingrato numa prisão sem volta. 

E nostalgicamente, entrei em cena. Convido-o a fazer parte dessa verdade também.

Um dia meus olhos de serviçal fitaram os olhos deste Rei, que sem grandes rodeios, chamo de Deus. Neste encontro profundo me dei conta de quantas vezes o havia ferido, traído, ofendido, acumulando uma dívida imensurável, que eu jamais teria condições de pagar.  No entanto, diante da sinceridade do meu coração, reconhecendo as inúmeras faltas e atrocidades que havia, livremente, cometido, Ele se compadeceu e apagou as minhas culpas.

Impelida por essa misericórdia, como reter para mim essa experiência? Como não transbordar? Como não levar essa misericórdia adiante?

Em se tratando de ser humano, de carne, de fragilidade, as coisas mais improváveis podem acontecer, inclusive a retenção da misericórdia gratuita, a pior ingratidão, a que mais fere o coração de Deus, assunto tema deste post: A falta de perdão.


A falta de perdão seria, talvez, aceitável, se perdoar exigisse de nós uma experiência impossível. Mas, considerando as falhas de todos os dias, considerando a nossa humanidade, a nossa natureza bem limitada, percebemos que existe algo que ultrapassa as nossas misérias.
Sabendo Deus que não podemos dar daquilo que não temos, nos faz mergulhar em seu Mar de Misericórdia. Uma experiência única de paz, e que espontaneamente, nos lança ao outro, num transbordar deste novo.

É possível, portanto, compreender a cólera do rei. É notória a ofensa a Deus, pois, não perdoar é reter o que de graça recebemos. É tomar posse de algo que não nos pertence. É se colocar num lugar que não cabe a nós. É uma atitude que nos faz infringir o quinto mandamento da Lei de Deus, "Não matar", aprisionando e matando em nós, uma pessoa, que assim como eu e você, tem limites, pecados e misérias.

Ao contrário disso, perdoar é um ato de liberdade interior, onde abrimos as prisões e libertamos das masmorras de nossos corações, aqueles que enclausuramos em nosso interior. 

Obviamente, esta não é uma atitude fácil, pois passa pelo nosso orgulho, pelo apego a nossa autoimagem, pelo medo do sofrimento, pelo zelo exagerado a nós mesmos. É uma ação que envolve acolhimento à dor, aceitação, sem busca de grandes explicações, pois afinal, não perdoamos alguém porque temos um motivo para tal. Ou acaso temos nós, perante a Deus, motivos para sermos perdoados? Perdão não é emoção, é decisão.

Mais uma vez eu digo, é preciso sinceridade, autenticidade, coragem, pois perdoar nos exige expor aquilo que muitas vezes queremos esquecer, tocar no que não queremos sentir, falar daquilo que queremos esconder.

Se somos sinceros a Deus sobre nossas faltas e pedimos perdão a Ele, por que então, não ser sincero em assumir que precisamos perdoar e temos dificuldade para isso? Por que não pedir uma graça sobrenatural para cumprirmos essas etapas tão difíceis em nossas vidas? Pedi e vos será dado.

Por fim, um dos últimos versículos dessa passagem, vai dizer preciso perdoar, de coração". O "de coração" vem até na tradução da minha Bíblia, a Jerusalém, entre vírgulas, para nos dar a entender que se não perdoamos, é o próprio coração quem sofre, pois é nele que ficam armazenadas todas as grades. Escolher livremente não perdoar, é na verdade um suicídio interior, pois quando não perdoamos, matamos aquele que está dentro de nós, e assim, matamos a nós mesmos. 

Logo, se não perdoar é morrer...

Perdoar é viver!


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Créditos de texto e imagem à Juliana Wulpi, autora deste blog. 


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