Alma de Artista

maio 29, 2017

Tenho passado por uma fase intensa de mudanças. Descobrindo-me cada dia mais, ou melhor, me redescobrindo, voltando às origens, ao que sempre fui, mas deixei de ser.



Geralmente, notamos as manifestações de nossos dons e aptidões logo na infância, quando ainda estamos puros, quando ainda somos autênticos e espontâneos, quando ainda não nos preocupamos em agradar, exclusivamente, a alguém. É a fase em que queremos, apenas, ser e fazer o que nos agrada e nos deixa feliz. Uma fase que sincera e verdadeiramente, expõe a que viemos.

Quero começar a dizer, então, que sempre gostei de arte, mas nunca fui o “padrão artista” da minha época. Amava literatura, amava pintura, amava música, contudo, em todo o tempo, tive gostos peculiares, que não me atraíam à arte que todos os artistas apreciavam. Achava-me uma artista “fake”, ainda que a arte estivesse impregnada em minha história, sem que eu percebesse.

Quando criança tinha fissura por cores. Minha mãe sempre comprava livros de colorir para mim e eu caprichava na criatividade. Era o meu melhor momento. Recordo-me com lágrimas nos olhos do primeiro kit que ganhei com tinta, canetinhas, lápis de cor e giz de cera. Vinha tudo numa maletinha, e eu a guardava no melhor lugar da casa, com todo cuidado.

Ainda nessa etapa da vida, evoluí de forma drástica, em relação às demais crianças da minha idade, no uso das palavras. Comecei a ler e a escrever cedo. Criava histórias e contava para toda classe com muita confiança. Eu adorava a platéia. E não era de se admirar eu fazer parte das peças de teatro da escola. Tinha muita facilidade em me expressar e o público nunca me intimidou, na verdade, ele mexia comigo de forma violenta e intensa. Se era para dançar, dançava. Se era para cantar, cantava.

Na pré-adolescência apaixonei-me por poesia. Participava de todos os sarais do colégio e lia todos os livros da biblioteca. Em pouco tempo precisava repetir as obras que já havia lido, pois não existiam livros suficientes, na pequena biblioteca de escola pública, para a grande sede da minha alma. 
Não mais satisfeita em ler, passei a transbordar escrevendo e montei o meu próprio caderno de poesias. Era só meu. Dificilmente mostrava aos outros.

Com 11 anos ganhei meu primeiro violão. Se fiz uma aula foi muito. Aprendi a tocar sozinha, aos trancos e barrancos, ouvindo minhas bandas preferidas de rock. Passava horas e horas no meu quarto arranhando aquelas cordas até que surgiram as primeiras e inusitadas composições.

No Ensino Médio parei de escrever poesias e comecei a escrever crônicas e contos. Paralelamente a isso, devorava livros maiores, e mergulhava cada vez mais na música. Eu era feliz e tinha consciência disso, até o momento em que tive que “crescer” e escolher um curso para prestar vestibular e decidir tão nova uma profissão.

Jornalismo era certo. Queria ser redatora. E o que me aconteceu? No ano do vestibular descobri que para ser jornalista não precisava mais "obrigatoriamente" ser formada na área de Comunicação. Meu mundo caiu. Não queria fazer um curso que fora tão desvalorizado a esse ponto. Resolvi, então, cursar Letras, pois se tudo desse errado, eu poderia ser professora. Sempre gostei da ideia de ser professora. Aliás, ainda penso muito nisso.

Com as reviravoltas da vida, tranquei a faculdade de Letras, mesmo apaixonada pelo curso e comecei a trabalhar em uma área que nunca foi meu sonho. Consequentemente, em contato com realidades distantes da minha essência, fui me afastando da arte, e me moldando à parte comum da sociedade. Na época eu não percebi, mas esse bizarro movimento trouxe influências impactantes a todas as áreas da minha vida. Tudo mudou. Do meu jeito de se vestir ao meu jeito de falar. E aquele estranho comportamento de ser igual a todo mundo foi tomando conta de mim. O padrão ofuscou meu brilho próprio e as minhas particularidades.

Em 2015 concluí a faculdade de Administração. O contato com o empreendedorismo, com a música que nunca abandonei, e com a escrita, que de uma maneira ou de outra, permaneceu em meu cotidiano, foram me salvando. E aliado a minha experiência com Deus, e a um caminho profundo de autoconhecimento, me fizeram iniciar uma trajetória de volta.

Hoje, continuo neste trajeto. É uma longa jornada, eu bem sei, contudo, estou bastante satisfeita com as pequenas realizações diárias, e animada com as redescobertas neste tempo de volta, rumo às origens. E sinto-me cada vez mais artista nesse processo, não porque eu quero ser, e sim, porque vou compreendendo que ela faz parte da minha identidade, parte de mim, ainda que por um tempo não tenha sentido. 

Eu demorei a entender, mas a verdade é que a arte ultrapassa minhas vontades e sentimentos. Ela me transcende. É a expressão concreta de quem sou. É vital, não sendo possível caminhar na ausência dela sem que eu esmaeça.

E ao contrário do que eu pensava anteriormente, e que me enchia de baixa autoestima no meio artístico, a arte não é construída, especificamente, à partir da inspiração de artistas renomados, que todo mundo ama. Na simplicidade, ela brota das grandes e pequenas experiências do dia-a-dia, onde, inevitavelmente, no compartilhar delas, insiro tantas outras pessoas no meu cotidiano.

É a minha arte, minha vida, minha alma, mas que ao final não são mais minhas, são nossas. Apesar de ser puramente Juliana, é também a Maria, o João, a Bianca, a Vitória, o Anderson e quem mais se identificar. 

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36 comentários

  1. Texto lindo, e de profunda delicadeza e principalmente me identifiquei demais com o assunto! Vou dividir com algumas amigas, pois essa pressão da sociedade no que faremos, o que é certo, o que da mais dinheiro, o que combina ou deixa de combinar, nos persegue durante toda a vida e só depende de nós como iremos carregar esse fardo.

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    1. Oi Mari! Compartilha com as amigas sim. Quem sabe não inspira na autenticidade?? Beijão!

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  2. Muito bom fazermos uma auto avaliação de como crescemos e conquistamos nossos objetivos e aproveitamos a vida de forma leve.
    Eu também sempre tive sonhos e a cada passo mesmo que de vagar vou conquistando.
    As vezes me pego pensando poderia fazer mais e mais e mais, conquistar mais e mais e mais ai vejo que o que falta é dar aquele passo em que só eu mesma poderei dar.

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    1. É isso mesmo Jessy. Nossa evolução depende da nossa decisão (até rimou) em seguir em frente, conquistando nosso espaço e deixando a nossa marca <3

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  3. Que texto lindo e profundo Juliana. Que bom que tenha encontrado um sentido em tudo que tinha duvidas! Tem pessoas que levam anos e mesmo assim não possuem um entendimento do quer para a vida. Parabéns. você é uma ótima escritora e seu conteúdo de auto avaliação é lindo!

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    1. Obrigada pelo carinho Brenda! E obrigada pelo ótima escritora. A gente tenta haha. Beijão

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  4. Eu me identifiquei tanto, tanto com você. Sempre amei escrever, ler, recitar, cantar, expressar. Sempre amei a arte. MAs com a chegada do vestibular, falar que eu queria fazer algo para me expressar, fez tudo surtar. "Não é profissão", "Não vai ganhar dinheiro", "não tem futuro". Serio, ouvi isso de todos os professores. Escolhi a enfermagem. Hoje? Sou enfermeira recém formada, estudante de pós graduação em enf do trabalho, Gerente de uma microempresa, e com todo amor do mundo blogueira (com todo amor, porque é através das resenhas dos livros que eu me ganho, me encanto, me perco). Seu post é ótimo. Parabens!!

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    1. Ahhh, que amor. Nossas histórias realmente se parecem muito. E sobre a enfermagem.. Fiquei curiosa! Você se encontrou? Está feliz?
      Com o blog já sei que a felicidade é certa <3

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  5. Nossa que post profundo! Que delicadeza e que escrita! Me acalmou só de ler, adorei. Também me fez refletir um pouco sobre como eu era na infância, e o que mudou (para melhor e para pior). Eu era uma pessoa tão diferente! Também comecei a tocar violão com 11 anos! Mas diferente de você eu fiz aulas, e não tinha o dom. Sempre invejei os alunos do piano rs
    Adorei o post. Parabéns! Beijos
    Ah, que foto linda também!

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    1. Ouwn Deborah, adorei seu comentário. No caso do violão, não importa se fez aula ou não. Se ficou interessada pelo mesmo, já é manifestação de algo mais profundo em você. Obrigada por sua contribuição aqui. Beijoo <3

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  6. Olá. Boa noite! Adorei o texto com a história da sua trajetória em busca da sua identidade essência, mas fico contente por você está seguindo em frente e se encontrando.
    Bjos

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    1. Fico feliz que tenha gostado! Eu também estou muito feliz nesse caminho de busca a mim mesma. Beijão!

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  7. Interessante o texto muito lindo e profundo, achei incrível a forma como fala e tal, o titulo também ajuda muito, já chama a atenção logo de cara !

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    1. Obrigada lindona. Seja sempre bem-vinda aqui no meu cantinho!

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  8. A sua história é linda e a escrita é maravilhosa. Estou vendo que as administradoras estão cada dia mais virando blogueiras hahahaha. Fico feliz por entender quem você realmente é e nunca, jamais deixe sua essência desaparecer. Beijos ❤

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    1. Ei Nathaliaa. É administradora também?? Blogar é vida!
      E pode deixar, não vou permitir que minha essência desapareça. Nunca mais!

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  9. Adorei o seu texto, Ju! Você escreve muito bem! E lendo ele, lembrei de quando eu era pequena, tinha vontade de quando crescer, ser aquelas moças que ficam andando de patins no supermercado HAHAHAHAHA veja só como a inocência de uma criança é uma coisa maravilhosa! Eis que cresci, mas infelizmente, ainda não me encontrei. Isso me entristece um pouco, mas não desisto de me encontrar.

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    1. Oi Nati, o importante é não desistir! E não fique triste, é normal a gente ter essa dificuldade. Tudo parte do nosso interior, do nosso autoconhecimento. Procure crescer nisso que te ajudará!

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  10. Que texto inspirador! Eu sempre acreditei que realizar nossos sonhos sempre precisam ser prioridades nas nossas vidas, mesmo que isso pareça estranho ou impossível para as pessoas. No final estar realizado e feliz com o que faz é a melhor coisa. Use sua veia artística! E sucesso com o blog!

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    1. Sim Erick! Usando de tudo da minha veia artística. E obrigada! Desejo muuito sucesso a você na realização dos seus sonhos <3

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  11. Já tem tempos que eu conheci seu blog e percebi o quanto sua escrita é transparente, leve e verdadeira.
    Esse texto me emocionou de uma forma na qual não sei explicar.
    Tudo o que descreveu, todas essas fases, elas fazem de você, quem é. E olha, uma pessoa bem especial, ao meu ver.
    A arte está no seu gosto por coisas particularmente suas e que fazem você feliz.
    Eu me identifiquei muito com o texto, pois por toda a minha vida, passei por fases do tipo. Desde a pintura, até a escrita e fotografias. Arte faz parte da minha vida o tempo inteiro e eu nunca tinha reparado nisso. Arte pode ser tantas coisas, não somente o desenhar e pintar.
    Sério, eu tô apaixonada pelo texto e por tudo aqui. Eu quero estampar seu texto, seu blog e seu trabalho numa blusa e sair mostrando ao mundo.
    Eu posso dizer que virei leitora, pois eu jamais ficaria bem sabendo que não conheci mais sobre seu trabalho!

    Beijos,
    Vitória Abdalla
    Escritora por um Acaso

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    1. Meu Deeeeus Vi, que coisa mais linda de ler. Chego a estar me tremendo. Minha felicidade, minha recompensa é saber que consegui alcançar um coração com minhas palavras. E sim, a arte é um universo de coisas. Você é artista mulheeer, seu blog reflete isso!
      Sobre ser minha leitora, é só amor. Será sempre bem-vinda. E divulgue mesmo meu conteúdo porque quero ir para Roma kkkkk
      Beijooos

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  12. Conheci seu blog pelo post da viagem de Roma (que tbm pretendo ir um dia haha), e me apaixonei pela sua forma de escrever é como se eu estivesse falando com você pessoalmente, a arte sempre esta com a gente não tem que ser só músicas ou pintar e desenhar, lembro-me de minha professora de ballet me dizendo que cada movimento que fazemos com nossos braços é uma forma de se expressar, adorei sua forma de se expressar pela escrita espero que tenha mais posts assim pois irei acompanhar!

    Beijos,
    Manoela Flores
    Hello is Manu

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    1. Manoela Flores, você é uma flor mesmo!! haha
      Obrigada pelo carinho, e por esse comentário tão delicado. É uma recompensa saber que a minha escrita fala de forma tão pessoal ao leitor.
      E fique a vontade por aqui, tem muito texto nesse estilo para você ler quantas vezes quiser <3

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  13. Nossa, que lindeza de texto! Simplesmente me apaixonei pelo seu jeitinho de escrever, sei lá, é diferente! Rs
    Me identifiquei muito com o seu texto, só que diferente de você, não consegui ingressar em uma escola técnica que eu queria muito. Mas, vamos esperar né, estudando e confiando!

    Beijos, parabéns pelo post.

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    1. Jeitinho diferente? haha
      Costumam dizer que eu escrevo conversando kkk
      Sobre seu curso, vai dar certo Ju. Se é pra ser, você vai conseguir. Mas não se aflija. Viva um dia de cada vez!

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  14. Eu tenho uma amiga que também trancou a faculdade de letras, é tão triste não fazer o que gostamos. Eu já pensei em cursar administração também, por sinal. Porém ainda estou "pensando".

    Eu sempre quis cantar, porém cadê a voz, em? Acho que o meu dom mesmo é escrever e dar conselhos, sério, sou ótima nisso.

    Beijos!

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    1. Então escreva cada vez mais e aconselhe. Ninguém precisa fazer tudo! Dedique-se ao que você gosta e isso te fará feliz <3

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  15. Amei seu texto, Juliana! Ficou lindo e . Eu mesmo quando criança queria ser professora por causa das minhas tias, acabei me formando em jornalismo, mas com essa crise que a imprensa esta sofrendo pretendo fazer outro curso. O importante é nunca parar de sonhar ir sempre além. - Xoxo

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    1. Verdade! Ain, Jornalismo... Por que faz isso com a gente???
      O importante é não parar mesmo! Beijão <3

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  16. Nossa, vc tem uma forma de escrever tão bonita. Parabéns, também me cobsiderava uma artista fake kkkkk

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  17. Aim amore eu amei cada detalhe do seu texto ♡♡
    Eu também tenho algo bem parecido com isso. Desde ser Turismologa até Maquiadora. Mas meu verdadeiro sonho desde os 14 anos e de ser Dubladora. E um dia isso vai se concretizar.
    Parabéns pelasnotimas palavras e te desejo muito sucesso.
    Beijinhos

    www.segredosdajuhcosta.com

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    1. Ei Juh! Um dia vai ser dubladora sim, e vai arrasar. "Quem acredita sempre alcança". E obrigada pelo carinho. Volte sempre <3

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  18. Acho que uma das coisas mais marcantes e legais dos artistas é que eles estão sempre inventando algo novo, sempre inovando e criando. Eu amo escrever, sempre estou criando novas historias.

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    1. É desse modeloooo! Artista está em constante criação, seja ela interior ou exterior. Beijão e volte sempre!

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