A tal da solidariedade

dezembro 05, 2016

Algumas semanas atrás, eu estava no local de mais tráfego humano, o terminal de ônibus. Minha condução saía às 8 horas e 6 minutos, mas quando o relógio apontou 8 horas, o ônibus encostou e todos os passageiros se acomodaram.

Vendo que o ônibus não saía, porque ainda faltavam os tais 6 minutos que muitos desconheciam, uns passageiros começaram a se exaltar e a pressionar o motorista para o início da viagem. Uma passageira, em especial, muito nervosa, se pôs a atacar o motorista dizendo que ele estava esperando uma loira. Como não pego sempre aquele ônibus, naquele horário, fiquei a observar a cena. 

A passageira iniciava uma série de injúrias contra o motorista, expressando sua revolta por, segundo ela, ele sempre sair atrasado a esperar a tal da loira. Logo, outros passageiros tomaram corpo às alegações da passageira, e juntos, injuriados, despejavam toda raiva sobre o motorista e a tal da loira.

Olhei no relógio, e ainda faltavam 3 minutos para a saída do ônibus. Nesse meio tempo, de fato, chegou uma loira. Quando a mesma entrou no ônibus, já se deparou com um clima muito pesado e com a irritação da maioria dos passageiros. Uns falavam mal dela, outros xingavam o motorista. Confesso que tudo isso foi me incomodando tanto, que não me contive: “Gente, o ônibus está no horário. Estamos saindo do terminal agora às 8 horas e 6 minutos, que é o horário dele mesmo e todos chegaremos a nossos destinos no tempo correto”.

Após minha fala, muitos ficaram em silêncio, com exceção da passageira que iniciou o tumulto. A referida mulher se dirigiu a mim, claro, com dez pedras nas mãos, afirmando que o ônibus tinha que sair às 8 horas e que a loira e o motorista eram culpados. Não debati muito, apenas abri em meu celular o horário do ônibus e mostrei a ela, confirmando que ela estava errada. Não se dando por satisfeita, a mulher continuou a ofender o motorista e a loira dizendo que eles tinham um caso, e começou a baixar o nível, levando as ofensas para o lado pessoal.

A loira, muito assustada, sem entender muito bem a situação foi até a tal passageira que esbravejava sem parar, e perguntou qual o problema dela. Não preciso nem entrar em detalhes. As duas iniciaram uma troca de agressões verbais e por fim, de agressão física. Os demais passageiros entraram no meio da briga e separaram as duas. A loira, completamente abalada, foi levada para a frente do ônibus, chorando compulsivamente. A outra continuava gritando no fundo do ônibus.

Eu olhava aquela cena abismada, tentando entender qual a necessidade daquilo tudo, e mais uma vez não me contive e me virei para a mulher esbravejante. “Moça, chega! Você não precisa disso, ela não precisa disso. Não estamos indo para nossos trabalhos no horário?” 
A mulher, menos nervosa, tentou argumentar dizendo que todos os dias eram assim, que os dois tinham um caso, que ela pega o ônibus todo dia e o motorista sempre fica esperando a loira e atrasa todo mundo. 
Ouvi seus argumentos, pacientemente, e por fim, respondi: “Bom, então hoje eu dei sorte, porque o ônibus saiu no horário. A vida da loira e do motorista é de responsabilidade deles, né?”

Ficamos todos em silêncio e de longe fiquei a observar a loira. Ela ainda chorava silenciosamente e meu coração se compadeceu. Qual seria o nome dela? Será que ela tem uma vida muito difícil? Será que está passando por problemas graves? Será que hoje no trabalho dela vai ser um dia complicado? Será que hoje é um dia de grandes decisões? 
E todas as ofensas que ela havia recebido naquela manhã ecoavam em minha mente. Cada palavra dura que eu me recordava, fazia meu coração se apertar.

A viagem já ia chegando ao fim, e num ímpeto de coragem levantei e me sentei ao lado da loira. Sem pensar muito, disse: “Olha, eu não te conheço, não sei como é sua vida, nem sei o seu nome, mas o que posso dizer hoje, é que, eu como passageira, não tive meus direitos feridos. Às 8 horas e 6 minutos o ônibus saiu do terminal e para mim é o que interessa. Sua vida pessoal, o que você faz com sua liberdade, se tem um caso com o motorista ou não, se ele é apenas seu amigo, não diz respeito a ninguém, muito menos a mim”

Ela me olhou aliviada e eu continuei: “E como pessoa, humana, o que posso dizer é que lamento por tanta agressão gratuita, e espero de coração que este pequeno episódio não interrompa o sucesso do seu dia. Que seja um dia produtivo e de paz, e que você supere todas as palavras ouvidas, injustamente, com o seu sorriso”. Ela sorriu, de fato, e me abraçou muito comovida.

Meus gestos foram simples e de minha obrigação como pessoa, sem merecimento a crédito por isso, aliás, nem mesmo o foco desta postagem eles são. Quero enaltecer as ações que vieram após os meus gestos.

A esperança na sociedade.


Depois da minha fala, passageiro por passageiro foi se levantando de seu lugar em direção à loira. Todos a abraçaram e proferiram palavras de conforto e apoio. O clima que antes era de guerra se transformou num clima de paz. Fiquei admirando aquela cena e refletindo sobre a tal solidariedade.

Ouvimos muito falar sobre solidariedade, mas, concretamente, pouco praticamos. E nesse episódio, em específico, pude perceber que as pessoas não são frias como parecem ser, elas se fazem de frias, de duronas, por muitos motivos, às vezes até por um mecanismo de defesa. 
Nesse acontecimento ficou claro, que as pessoas só precisam de incentivo para executar o que já está em seus corações. Só precisam de um empurrão.
Ser solidário é unir simpatias, é ser empático com a realidade do outro, é se compadecer com a dor do próximo... E todo ser humano é capaz disso, pois faz parte da sua essência!

Estamos vivendo tempos muito sombrios, e diante de tantas catástrofes, diante de tanto ódio gratuito, intolerância e individualismo, eu vejo esperança. Sabe por quê?
Esses dias fiquei a refletir sobre o cacto, aquela planta espinhosa. Ele não possui um aspecto exterior muito agradável aos olhos, é cheio de espinhos, e típico de lugares secos e áridos. Contudo, por dentro, o cacto possui uma grande reserva de água, que salva a muitos no deserto. Depois de um tempo, uma belíssima flor desabrocha nele.

A minha esperança vem justamente da comparação entre pessoas e cactos. Estamos, metaforicamente, vivendo em um deserto. Nos falta amor, nos falta compaixão, dentre muitos outros sentimentos e atitudes do bem. Neste deserto, estamos cada um de nós, os cactos, que por fora parecem ásperos, rudes, mas que, diante da necessidade, ofertam todo o interior rico de vida a quem precisa. Somos esses cactos, que por questão de sobrevivência, às vezes, passamos a vida retendo tudo para nós mesmos, mas que perante a uma situação extrema, abrimos o nosso interior ao próximo.

Caro leitor, o cerco do mundo está se fechando, o deserto está nos consumindo pouco a pouco, e só será possível sobreviver quando aprendermos que a vida é coletiva e não, singular. A necessidade já bate a nossa porta. Até quando reteremos nossos bens em detrimento da partilha dos mesmos? Deixemos as belas flores de nossos cactos desabrocharem!

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Créditos de texto e imagem à Juliana Wulpi, autora deste blog. Lembre-se, plágio é crime.

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4 comentários

  1. Será que estou morrendo de orgulho de você? Infelizmente a violência gratuita é cada dia mais presente no dia-a-dia das cidades mas, graças a deus ainda temos pessoas maravilhosas que ajudam a tornar os dias mais suportáveis!
    Mais uma vez que venho aqui ler seus textos e me sinto incrivelmente grata por ter alguém como você na minha vida!

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  2. Que texto inscrível, amei <33
    Parabéns pelo blog, já estou seguindo para poder acompanhar as novidades

    www.papomoleca.com.br

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