À margem da sociedade

novembro 08, 2016

Eu estava sentada no banco da frente do ônibus, tarde da noite, voltando para minha casa depois de um dia tumultuado. 

Roleta, ônibus



Num trecho escuro, entrou um rapaz de pele negra, com trajes modestos, e sem muitas expressões. Ele ficou em pé antes da roleta, parado, olhando para um ponto fixo. Assim que os passageiros o avistaram, esconderam rapidamente seus pertences e ficaram em atitude de vigilância. Eu sem saber muito bem o que fazer ou sentir, me detive em apenas observar a cena. 
O rapaz parecia não se importar com os olhares estranhos, na verdade, acredito que ele nem se quer percebeu nada. Agiu como um homem invisível, se comportando de maneira indiferente aos olhares e percepções alheias.

Inexplicavelmente, fiquei incomodada. Algo em mim queria saber o nome dele. Algo em mim queria saber sua história de vida. Algo em mim queria tratá-lo como um cidadão de bem, assim como ele deveria ter sido tratado pelos demais passageiros. Sem entender bem o porquê, a cada vez que eu o olhava, crescia em mim um desejo de conhecê-lo. Ele não parecia ser uma pessoa perigosa.

Mais adiante, tentei cruzar nossos olhares, num intuito de quem sabe, puxar uma conversa. Contudo, ele estava irredutível com os olhos voltados para seu ponto fixo.

Quantos anos teria aquele rapaz? Aparentava uns 19 anos, mas suas mãos calejadas entregavam sua maturidade prematura. Os pés rachados apontavam para uma vida dura e chagada. Num contexto geral, era perceptível que eu estava diante de um jovem machucado pela desigualdade.

Depois de muito custo ele virou o rosto em minha direção. Finalmente nossos olhares se cruzaram, e antes que eu pudesse sorrir, ele me rejeitou e voltou a fixar seus olhos no além. Doeu, porém, entendi sua atitude... Atitude de quem não se importa e não quer se importar. Atitude de quem acredita que nada mais faz diferença, porque mesmo os olhares bons, não expressam bondade, mas sim pena, e os olhares maus não passam de desprezo, o que não é nenhuma novidade para ele.

Juro que por segundos, naqueles pequenos instantes em que ele me olhou, era como se implorasse para que eu não o percebesse. Era como se clamasse para que eu o ignorasse como todos costumam fazer. Então eu compreendi que, inevitavelmente, a indiferença é melhor para ele, pois ela faz parte do seu cotidiano. Ele já aprendeu a lidar com ela. Digamos que a indiferença, para ele, é cômoda e sair dela significa desconforto.

E eu tentava acolher de alguma forma o seu pedido silencioso, não por vontade, mas por respeito. Só que notar seu olhar que sinalizava um vazio e uma condição de invisibilidade, cortavam cada vez mais meu coração. Era um olhar que denunciava sua desesperança. Era um olhar que gritava que NÃO FAZ MAIS DIFERENÇA viver bem ou não em sociedade, porque pra ele, a sociedade é uma farsa. A sociedade é egoísta e egocêntrica. A sociedade não se preocupa com pessoas como ele. Viver em sociedade não importa para ele, porque a sociedade o rejeita, sem ele se quer ter feito nada.

Por fim, ele desceu em seu ponto com mais mil rótulos pregados na testa. Ele não fez mal a ninguém! Por que as coisas precisam ser assim? E comecei a pensar em tantos outros que sofrem diariamente. 

São seres humanos que se apresentam invisíveis e se comportam como sombras. Sempre à margem que é para não incomodar a vida das "pessoas normais" e de "bem".

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Créditos de texto e imagem à Juliana Wulpi, autora deste blog. Lembre-se, plágio é crime.

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30 comentários

  1. Gente, esse texto é uma mistura de tristeza, tapa na cara e peso. É pesado, é triste, é uma reflexão que deixamos de ter diariamente, quando nos comportamos involuntariamente aumentando preconceitos sem perceber, dilacerando almas que por carregarem fardos sociais, são impedidas de ter uma vida boa. Mais uma prova do racismo e do sofrimento desse povo, da necessidade da desconstrução e da importância de tantas lutas sociais. Espero que esse moço possa um dia viver num país livre de tanta desigualdade e preconceito, que ele possa achar uma vida boa e ser feliz e tranquilo sabendo que ele é alguém e alguém importante, como somos todos nós.

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    1. É forte né? Mas talvez só assim para termos um choque de realidade para abrirmos os olhos para situações que acontecem diariamente e a todo tempo!

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  2. Realmente nossa realidade é triste! Perceber o tamanho do preconceito corta o coração. Ver que um rapaz que não fez nada para ninguém pode ser julgado como "diferente" pelas "pessoas normais". Quando isso vai mudar?
    Adorei seu post Juju, você arrasa como sempre, precisa lançar um livro logo!
    Beijos

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    1. Obrigada lindonaaaa! To longe de escrever um livro ainda kkk

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  3. Nossa que triste! Em pensar que ainda as pessoas são ridículas em destratar alguém!
    Fico muito triste com essas atitudes das pessoas e o pior é que sabemos que sempre vai ter algum preconceituoso! Eu sofro por ser gordinha e sei qual é o sentimento quando as pessoas te olham com outros olhos!
    Amei o texto!
    Beijos

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    1. Obrigada pela sua partilha! É triste, e pior, é real!

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  4. Muito triste a realidad, infelizmente para muitos é melhor serem invisíveis que notados com desprezo. Bjos

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    1. Exatamente. Como mudar essa realidade de que é melhor ser invisível? Isso que tenho me questionado todos os dias.

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  5. Que profundo. Diariamente eu penso nesses rótulos que nos foram ensinados à colocar. Infelizmente muitas pessoas são julgadas de forma errada, e são tratadas de forma que não mereciam.
    Que bom ainda existem pessoas como você, que enxergou DE VERDADE aquele garoto

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    1. É o ver com os olhos do coração! Que todos aprimorem essa capacidade para termos um mundo melhor!

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  6. Que texto incrível e que triste a história contada... E sabe o que é pior? Isso acontece todos os dias em qualquer lugar :( E infelizmente é tão difícil mudar a cabeça e a atitude das pessoas né?! :(

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    1. É difícil mesmo! Mas vou tentando, como uma formiguinha, o importante é não perder as esperanças!

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  7. Realmente vivemos em um país desigual . É triste o preconceito, e devemos combate-lo sempre. Parabéns pelo seu texto e que ele mecha com o coracao das pessoas .

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  8. Lindo texto! Viajei na história e nos detalhes descritos. Fico triste com esse tipo de discriminação, mas compreendo os passageiros. Essa é uma forma de defesa. O mundo não está bom. O mundo não é bom. A criminalidade no Brasil é altíssima! Não há segurança nos ônibus (e em muitos outros lugares). As pessoas tem medo de, depois de um dia cansativo de trabalho/estudo, levarem as coisas que lutaram tanto para conseguir. A impunidade deixou as pessoas assim. Discriminam brancos e negros, adolescentes e adultos, homem e mulher, enfim... Qualquer um. Elas apenas tentam se proteger. O fato de guardarem seus pertences é justamente para não chamarem atenção... Serem discretas e passarem desapercebidas. Agora, se alguma delas tivesse humilhado o rapaz, seria outra história.

    Beijos!
    www.bulafashion.com

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    1. Sim! Eu entendo totalmente o que você expôs e não culpo ninguém. São váriooos problemas que vão emendando no outro e nos vemos sem saída, como uma corda no pescoço mesmo :/

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  9. Ju,
    Que texto! Você sempre nos trás textos carregados de reflexões e de sentimentos. Confesso que meus olhos estão úmidos, pois ao passo que lia, tentei visualizar a cena e isso me causou um desgosto muito grande com o tipo de sociedade que vivemos. A indiferença para muitos é como uma armadura. Melhor passar despercebido que sofrer com o preconceito.

    Beijo

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    1. Obrigada Paula pelo carinho de sempre! É triste demais. E como sair disso? É o que me pergunto sempre.

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  10. Texto maravilhoso!Eu vejo isso não só em ônibus,mas pelas ruas,pelos mercados em todo lugar,a sociedade cria rótulos julgando as pessoas pela aparência,e não pelo o que ela realmente é,fico feliz em saber que ainda existem pessoas como tu,que se preocupam com os ouros,e não julgam pela aparência.

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    1. Isso mesmo Rafa! Está em todo lugar. Citei esse acontecimento para ilustrar as ideias. Mas é complicado né? Bjão

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  11. Texto maravilhoso! porém a sociedade é cruel, já vi e vejo isso acontecendo em vários lugares por onde passo, é triste ver essas pessoas que só julgam pela aparência e dificilmente encontramos pessoas que não ligam pra aparência mas sim,para o que á dentro de si.

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  12. É uma triste realidade, ainda existem pessoas "invisíveis", em meio a tantas pessoas, cada um tem uma história, que leva a uma determinada situação, a uma dificuldade ou necessidade. Temos que perceber a todos e nunca julgar, até porque isso não cabe a nós, o importante é ouvir e ajudar ao próximo, independente de quem seja.
    Amei o texto!
    Beijos

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    1. Desse modelo Anne! Obrigada por sua contribuição aqui no blog. Bjão!

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  13. É... Não tá fácil. O ser humano é muito mau. Eu não consigo entender o que se passa na cabeça dessas pessoas que julgam alguém pela aparência ou pela cor. É algo tão insignificante. E me dói saber que ainda existem muitas pessoas assim. Sabe qual a diferença do branco para o negro? A quantidade de melanina. Somente. Mas as pessoas não enxergam dessa forma...
    Gostei muito do texto.
    Beijos!
    https://tarsilamartins.blogspot.com.br/

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    1. A diferença está na melanina mesmo! Arrasou!

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  14. Nossa...Ate que ponto um ser humano pode chega.? Infelizmente no mundo em que vivemos existe muitos seres humanos "invisível" é FATO!
    adorei seu post muito bom para um debate e principalmente refletir.
    bjs e sucesso!
    http://www.pandapixels.com.br/

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    1. Obrigada Dani! Pois é, nesse nível de seres humanos que estamos!

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  15. Nossa, Ju! Quantos sentimento teve esse texto! Costumo muito ver as pessoas rotulando outras, não só por ser alguém como o personagem do seu texto, mas por terem problemas, por comerem muito, por serem cristãos... Muitas situações. Tudo isso, por acharem que só porque não fazem ou não entende isso os dá o direito. Enfim, realidade triste.
    Você sempre arrasa! Amo seu blog.
    Um beijo.
    Esteticando-se

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    1. Então Manu, no texto eu usei o personagem mais específico, mas só para ilustrar os preconceitos da vida. É para pensar como você mesmo, sobre todos os tipos de irregularidades que temos!

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