É melhor ser feliz que ter razão

outubro 18, 2016

Eu trabalho em setor público, numa escola para ser mais exata, onde, naturalmente, o estresse rola solto.


Olhe pro céu, acredite


Era final de expediente e eu já estava farta de tantos incômodos. Só queria casa, banho, comida e cama. Ah, mas como nada é da forma que sonhamos, neste contexto crítico, apareceu um aluno querendo atendimento. Meio insatisfeita e estressada fui atendê-lo e verifiquei que seu pedido era algo que eu, perfeitamente, poderia atender.

Olhando bem para o rosto daquele aluno, recordei-me, então, que eu já havia realizado aquele serviço para ele anteriormente. Aborrecida em ter que fazer tudo, novamente, por negligência da parte dele, não tardei em expor minha indignação.

Rispidamente, exortei-o a respeito do meu serviço, dando aquela lição de moral básica, estilo mãe, dizendo que eu não estava ali para fazer o que ele quisesse, quando quisesse, na hora que quisesse... Que as coisas tinham ordem, padrão e prazo. 
Visivelmente incomodado com minha chuva de argumentos, o indivíduo resmungou com o colega ao lado: “Vagabunda!”. Não nasci ontem e não precisava de ninguém para desenhar a atitude do menino. Ele me chamou de vagabunda.

Num ímpeto, despejei toda a minha ira retida sobre ele. Não xinguei, nem usei palavras de baixo calão, mas me expressei de forma grosseira e autoritária. O aluno não sabia como esconder o rosto de vergonha por estar sendo exposto diante dos colegas que assistiam a cena. Quando tudo acabou, eu deixei que minha colega concluísse o pedido dele, e me retirei.

As pessoas de mais idade me deram razão, alegando que às vezes precisamos ser duros para sermos compreendidos e respeitados. Outros me deram razão, pois segundo o senso comum, não devemos levar desaforo para casa. Na verdade, não teve uma só pessoa que não me deu razão e apoiou a minha atitude, entretanto, a minha consciência me reprovou.

Custei a dormir naquela noite. Remexia-me de um lado para o outro na cama com o rosto daquele menino em meus pensamentos. “Será que ele tem quantos anos?”“Será que ele sofre muito na vida?”, “Será que ele tem uma família amorosa?”, “Será que ele é amado?”, “Será que gritam muito com ele?”, “Será que ele é muito desrespeitado?”. E diversos “Serás” foram tomando conta de mim, juntamente com uma angústia dolorosa.

No dia seguinte, eu o procurei. Quando entrei na sala de aula, e assim que ele percebeu minha presença, abaixou a cabeça. Chamei-o pelo nome e pedi para que me acompanhasse. Muito temeroso, e com uma expressão carrancuda, ele me seguiu. 

Então, de maneira objetiva, indolor e convicta, pedi perdão. Ele arregalou os olhos, numa verdadeira manifestação de surpresa, e sem saber muito bem o que fazer, apenas disse: “Eu não quis te chamar de vagabunda”. Ele tentou se explicar, e eu o interrompi, dizendo: "Você poderia ter me chamado de coisa pior, e ainda assim, eu não deveria ter te tratado da forma como tratei”.
Não nos abraçamos porque seria algo íntimo para o ambiente, mas sorrimos um para o outro. Foi um ato simples, mas que fez toda diferença na minha vida, e tenho certeza que fez a diferença na vida dele.

Em toda a minha criação, tive uma base familiar quase que impecável, uma educação com valores e muitas expressões de carinho e amor. Nunca me faltou nada. Pode ser que aquele menino tenha tido em sua formação tudo que eu tive, mas pode ser que não. Eu não sei, e sabe, não importa, pois o que vale, é o que eu sou. A minha conduta não deve mudar pela conduta de terceiros. O que eu sou, deve permanecer intacto, na minha essência, em qualquer circunstância. Não, a minha educação não depende da educação do outro.

E ainda que eu tenha pedido perdão por uma questão de princípios ou para tirar o peso das costas, aquele menino aprendeu, involuntariamente, no meu ato, que não importa ter razão, não importa estar certo, não importa “ficar por cima”, pelo contrário, às vezes é necessário abaixar-se. Às vezes é necessário não guardar orgulho, ser humilde e estender a mão.

Eu levei o tapa e revidei. A história poderia ter acabado ali e nada mudaria para nós dois, contudo, algo me impulsionou a fazer diferente, e nós dois colhemos frutos. Do meu revidar, houve arrependimento, e uma mão solícita. Ele a aceitou.

Ah, é como diriam os mais antigos, e a mãe da minha amiga Ferrá: "É melhor ser feliz que ter razão".
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Post escrito por Juliana Wulpi, autora deste blog.

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28 comentários

  1. EU N TO ACREDITANDO hahahaha Você usou mesmo o título <3 QUE AMOR!
    Agora sobre o que importa hahaha, que texto maravilhoso, cada vez que entro aqui fico encantada com seu jeito de escrever e refletir sobre as situações muitas vezes adversas da sua vida. O que você fez foi muito sensato e ótimo de sua parte, espero que ele também tenha aprendido com o que aconteceu, afinal, a vida é cheia de aprendizados (se não for pelo amor, vai pela dor).

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    1. Sua contribuição foi a cereja do bolo!
      Obrigada por ouvir minhas lamúrias kkk
      "Se não for pelo amor, vai pela dor" Desse modelo.

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  2. Que texto lindo, você tem muito talento <3 Temos que ter mais amor próprio e sabedoria para lidar com os obstáculos da vida, tudo é aprendizado e levamos isso pra sempre com a gente.

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  3. A vida nós dá cada aprendizado não é?

    Amei o seu texto bem reflexivo !

    Bjokas, bypaulanascimento.com

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  4. Que atitude linda. Parabéns. Por isso cada dia mais acredito que a consciência é nosso melhor guia. Mas não uma consciência qualquer...isso exige treinamento e fico feliz que existam pessoas como você no mundo. Que mesmo coma razão preferiu ficar com a mente limpa.
    Beijo

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    1. Sim! Preferi "não ter razão".
      Beijos lindona e obrigada pelo carinho <3

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  5. Falou tudo, ás vezes é necessário ser humilde, pedir perdão e deixar o orgulho de lado. Muitas vezes na vida, perdemos muitas oportunidades e nos tornamos pessoas frias e mal educadas sem perceber. São atitudes pequenas como essa que fazem toda a diferença!

    Parabéns pelo post! Beijos!
    www.meiguicesdalu.blogspot.com.br

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    1. Isso Lu! Atitudes pequenas, grandes ações haha

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  6. Adorei o texto, concordo e também acredito que se as pessoas (me incluo aqui) enxergassem esse mesmo ponto de vista nós talvez fossemos um pouquinho mais felizes...
    beijoos

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    1. Nunca é tarde para "perder a razão" e ser feliz :D

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  7. Sinceramente como fui ministrada por Deus através desse texto, isso me lembra de Jesus quando Ele fala que devemos dar o outro lado da face quando alguém nos bater, e foi isso que você fez. Tenho certeza que a semente do amor e do perdão foi implantada na vida desse aluno, o perdão constrange pessoas, o amor constrange! Parabéns pela linda atitude de abrir mão da razão e ser feliz de que você fez certo!
    Beijos! Deus abençoe <3

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    1. Você falou tudo! O amor e o perdão constrangem <3
      Obrigada e amém!

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  8. Seu texto é bem reflexivo, amor próprio é tudo, mas as vezes temos que passar pelos obstáculos e conseguissem enxergar a vida de forma diferente, seriam muito mais felizes. Parabéns por este post transbordar sentimento.

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  9. Acho que nunca disse isso, mas amo seus textos ! temos que ter amor propio ante tudo, e confiar, só assim a gente vai atravessar os obstáculos, voce é escreve perfeitamente bem.

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    1. Ouwwwnn, não tinha dito não!
      Estou sabendo agora. MUITO obrigada pelo carinho <3

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  10. Eu tento me policiar quanto ás minhas atitudes hoje em dia, pq meu imediatismo, tantas vezes agressivo, me trouxe mais perdas que ganhos. Adorei o seu texto, e te digo que vc esta no caminho certa da felicidade.
    Ahh...sua atitude com certeza fez um bem enorme ao garoto.

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    1. Eu também sou imediatista. É uma luta diária. Mas a cada dia vou dando mais um passo :D

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  11. Oii, eu teria rebatido também! Até pior se duvidasse, porque não tenho paciência não, ainda mais me chamando de vagabunda??? JAMAIS. Só que no dia seguinte iria fazer igual a você. Mas é que a gente quando ta com a cabeça quente explode mesmo, é normal.

    Um beijo, ótimo texto.
    http://pareinaadolescencia.blogspot.com.br/

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    1. É menina, é tenso! Pensa no nervoso da hora. Mas estou tentando me controlar mais.
      Beijãao

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  12. Parabéns pela atitude, lindo texto, eu não teria a mesma atitude pois eu sou muito esquentada. kkkkk Levo dias para desculpar uma pessoa.
    Mais seu texto me fez refletir! Beijos

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    1. Normal! Mas o importante é refletir mesmo. Beijão =**

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  13. Nossa um texto para se refletir mesmo, não sei que teria a mesma atitude. Mas agora, com certeza antes de eu revidar um tapa, vou pensar se isso vai acrescentar algo na situação. Muito bom, parabéns pelo texto.

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    1. Isso aí! Pensar mais né? Assim a gente evita muita coisa <3

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  14. Olá, Juliana!
    Eu sou completamente APAIXONADA pelos seus textos! Você escreve tão bem e suas palavras são tão gostosas de se ler.
    Com esse texto não foi diferente, eu amei!
    A vida é assim mesmo e por mais que achemos estar certos, para não causar energias ruins, é melhor concordar e abaixar a cabeça. Não devemos encher nosso coração com coisas ruins. Então, vamos espalhar amor e compaixão.
    Beijos,
    Escritora por um Acaso

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    1. Ouwwnn que comentário mais amor <3
      MUITO MUITO obrigada pelo carinho.
      E sim, vamos espalhar amor e compaixão!!

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