Eu prefiro ser careta

setembro 14, 2016

Esses dias eu estava no ônibus ouvindo a conversa alheia. Não me julgue, às vezes é útil. Era um bate papo entre um casal de namorados.

Conversa vai, conversa vem, a menina disse algo do tipo: "Ah amor, não vou te mandar "nudes" minha não. Da última vez que fiz isso deu ruim". O namorado rapidamente respondeu: "Mas aquele cara era um babaca, e eu te amo. Você não confia em mim?"


Os dois continuaram a desenrolar a conversa, e no fim, ambos chegaram a conclusão de que era um ato comum e normal, afinal, eles não seriam os primeiros e nem os últimos nessa situação.

À partir daí, entrei no meu modo reflexiva, e fui lembrando de fatos que vivi na adolescência. Calma, eu não mandava "nudes", mas eu vivi a fase do MSN, onde a cada amizade masculina surgia um "manda foto" ou "manda foto de como você está agora".

Naquela época já era um fato incômodo. Você estava ali conversando de boas e do nada o cara te pedia uma foto. E eu me questionava: "Se nas minhas redes sociais tem fotos aos montes, por que a insistência de uma foto minha agora?". Nessas horas eu lembrava da minha mãe falando pra tomar cuidado com a internet, pois ela era muito perigosa, e lembrava também dos casos de polícia com meninas vítimas de montagens pornográficas. Por fim, eu fazia o sinal da cruz e bloqueava o cara sem pestanejar.

E ouvindo a conversa daquele jovem casal, eu pude ver, concretamente, que as coisas de 10 anos pra cá vieram de mal a pior. O que antes era implícito no "manda foto" agora está explícito no "manda nude". 

Bacana a história? Mas não é sobre os riscos de mandar fotos um pro outro que eu quero falar neste post.

Não mande nudesSou só eu, ou mais alguém percebeu que estas pequenas negligências do passado afetaram negativamente a forma de se relacionar? Hoje temos em abundância relacionamentos baseados na aparência, relacionamentos vazios, relacionamentos descartáveis onde um usa o outro até não lhe servir mais e depois descarta sem muita ou nenhuma piedade... Relacionamentos como o casal do ônibus, que aprendeu a se relacionar assim, indo a favor da maré, fazendo muitas vezes o que não quer, porque todo mundo faz, porque todo mundo acha normal.

Eu vejo esses relacionamentos aos montes e sinto uma espécie de tristeza alheia. Será que esses casais vão perder quanto tempo até aprenderem que uma relação baseada em genitalidade só a torna pobre e sem sentido? Será que esses casais vão viver na mediocridade por quanto tempo até enxergarem que o coração é muito mais precioso que o corpo por si só?

Não dá pra bater palmas a essa exposição desnecessária do outro. Não dá para aceitar a objetificação das pessoas e achar que isso tudo é progresso, modernidade, liberdade. Estão confundindo liberdade com libertinagem, estão se tornando escravos dela mesma, alegando que são as necessidades do corpo humano. 

E sabe o que é pior? Com essa história de usa e abusa, um vai machucando o outro, e este por sua vez machuca o próximo, que machuca o outro próximo e por fim temos uma infinidade de pessoas desiludidas e despreparadas para o amor. Lembra do poema "Quadrilha" de Carlos Drummond? Do João que amava Teresa, que amava Raimundo... É mais ou menos isso.

Eu que sou uma romântica por natureza e defensora do amor acho um sofrimento enorme uma pessoa viver uma vida sem saber o que é amar e ser amado. Talvez se a canção de Rita Lee dissesse "Amor antes, sexo depois" as relações seriam mais verdadeiras. Eu sei, filosofei, a Rita Lee não tem culpa de nada.

Espero não estar errada, e desculpem-me a sinceridade, mas diante de tantas "evoluções", que eu vejo como retrocesso, eu prefiro ser careta e antiquada.


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Post escrito por Juliana Wulpi, autora deste blog.

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4 comentários

  1. Respostas
    1. Bora ser careta que é melhor que ta tendo! Kkk :D

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  2. E se você parar pra analisar, boa parte das causas de suicídio deviram de garotas magoadas por relacionamentos abusivos ou algo do tipo. E eu além de careta prefiro aquela velha e boa história - antes só, do que mal acompanhada. As pessoas veem as outras errando e acabam tomando aquilo como acerto, deprimento mesmo. Parabéns pelo texto, bem reflexivo ♡ xoxo, Blog B de Bia

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    1. Verdade Bia! Obrigada pela contribuição aqui no blog!

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